segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Aparições e Revelações - Apariçoes Marianas

Em síntese: A Igreja acredita na possibilidade de aparições e revelações particulares, pois estas ocorreram desde os tempos bíblicos (a São Paulo, a São Pedro, a Sto. Estevão…) através dos séculos até nossos tempos. Toda­via, como Mãe e Mestra, a igreja é prudente e não se precipita no julgamento dos fenômenos. Manda examiná-los por peritos; em alguns casos, o laudo daí  resultante é negativo (pois se verifica doença mental ou algum fator de ordem moral incompatível com uma intervenção do céu); em outras ocasiões, o laudo pode ser favorável ao culto da Virgem SS. como decorre dos fenômenos avali­ados (são os casos de Lourdes e Fátima); em outras situações ainda, não aparece por que condenar os fenômenos, como também não há por que lhes dar abono (ainda que indireto); em tais circunstâncias, a Igreja não interfere nas demonstrações de piedade ocorrentes nos lugares das supostas aparições, tendo em vista o aspecto pastoral ou os benefícios espirituais e físicos que resultam das peregrinações e celebrações ligadas a esses lugares.
Como quer que seja, o bom senso lembra que vivemos numa época de crise e desânimo, em que grande parte das populações é propensa a imaginar soluções extraordinárias e fenômenos raros, visto que os recursos convencionais do saber humano não resolvem os problemas da humanidade contemporânea. É de notar também que uma autêntica aparição não poderá senão confirmar as verdades do Evangelho; profecias muito minuciosas são suspeitas de inautenticidade. O que fica sempre, é a mensagem: oração e penitência, como resultado de uma genuína aparição.
Têm-se multiplicado, no Brasil e no estrangeiro, fenômenos de aparições atribuídas à Virgem SS.. As opiniões se acham divididas a respeito, pois, ao lado dos que crêem facilmente numa intervenção do céu, há aqueles que recusam ceticamente dar-lhes crédito. Em muitos casos perguntam o que a Igreja pensa a respeito deste ou daquele caso ou no tocante às aparições em geral.
Vamos, pois, nas páginas subseqüentes, apresentar as linhas-mestras da doutrina e da atitude da Igreja frente ao fenômeno “Aparições”, valendo-nos especialmente do opúsculo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil intitulado “Aparições e Revelações Particulares” (Coleção “Subsídios Doutrinais da CNBB”  nº 1).
Comecemos por descrever mais detidamente o problema.
1. OS  FATOS
Desde o século XVI tem-se notado, com maior freqüência do que antes, o fenômeno “aparições”. Assim em 1531 em Guadalupe a Virgem SS. terá apa­recido ao índio Juan Diego; em 1858 em Lourdes (França) a Sta. Bernadete Soubirous; em 1917 em Fatima (Portugal) a três pequenos pastores. No Brasil, a partir de 1960 registram-se os casos seguintes:
1. 1960 em diante: em Erechim, Rio Grande do Sul, Nossa Senhora da Santa Cruz se estaria manifestando a Dona Dorotéia.
2. 1967-1977: Nossa Senhora da Natividade teria aparecido ao Dr. Fausto Faria, em Natividade, Rio de Janeiro.
3. 1975 em diante: a imagem de Nossa Senhora do Senhor Morto estaria sangrando e transmitindo mensagens a Dona Hermínia Morais de Souza, em Itú, São Paulo.
4. 1987-1988: Alfredo Moreira teria visto Nossa Senhora da Obediência e dela recebido mensagens, em Congonhal, Minas Gerais.
5. 1988: um grupo de crianças estaria vendo Nossa Senhora e recebendo dela mensagens, em Taquari, Rio Grande do Sul.
6. Após 1988: até nossos dias numerosos são os casos que vão sendo registrados.
Além desses, citam-se no Brasil muitos outros relatos de fatos extraordinários, como o de Dona Edelmira de Paiva Nunes: o forro de sua casa desabou, deixando intacta a imagem de Nossa Senhora; vários romeiros teriam visto a imagem de Nossa Senhora da Penha lacrimejar, no Rio, 1984; a Igreja de Nossa Senhora, Rosa Mística, em Juiz de Fora, teria vertido água; o altar de Nossa Senhora, Rosa Mística, em Jacarezinho, no Paraná, também teria vertido água, em 1987; o mesmo teria acontecido em Oliveira Fortes; Minas Gerais, com três quaresmeiras. Fora do Brasil, um elenco de aparições no século XX encontra-se em PR 390/1994, pp. 508-510.
Vejamos o que pensar a respeito.
2.  QUE DIZER?
2.1. Atitude da Igreja
A Igreja crê na possibilidade de aparições do Senhor e de seus Santos, pois a própria Escritura atesta a ocorrência de autênticas aparições. Assim São Paulo, na estrada para Damasco, foi impressionado por uma visão do Senhor, que o chamava à conversão (cf. At 9, 3-9); São Pedro teve uma visão antes de ir à casa do centurião Cornélio (cf. At 10, 9-11); S. Estêvão, antes de morrer, viu a glória de Deus e Jesus à direita do Pai (cf. At 7,55s). – Todavia, antes de se pronunciar a respeito de alguma aparição, a Igreja é cautelosa; manda examinar cada caso criteriosamente, pois sabe que muitas vezes os fiéis, com toda a boa fé, podem imaginar estar vendo e ouvindo o que não passa de projeções de sua fantasia.
O  exame de determinado caso pode chegar a uma das três seguintes conclusões:
1) O laudo é negativo, pois se verifica que, da parte dos(as) videntes, há debilidade mental, fantasia exuberante, desonestidade, charlatanismo… Tal foi o caso das visões de Garabandal (Espanha). A Igreja também se pronunciou negativamente sobre as “revelações” do Senhor a Sta. Brígida.
2) O laudo registra frutos positivos no plano espiritual e físico (conversões, afervoramento, curas de doenças e outros benefícios…), ao passo que nada desabona a saúde mental e a honestidade de vida dos(as) videntes. Em tais casos, a Igreja não somente permite, mas favorece o culto ao Senhor ou ao(à) Santo(a) que se julga ter aparecido. Daí o culto a Nossa Senhora de La Salette, a Nossa Senhora de Lourdes, de Fátima…, havendo a festa respectiva no ca­lendário litúrgico da Igreja. Note-se bem: embora a Igreja favoreça o culto a Nossa Senhora em tal ou tal lugar, ela nunca diz, nem dirá, que a Virgem SS. Apareceu; o fenômeno “aparição” não pode ser definido pela Igreja como verda­de de fé. A revelação pública e de fé divina está encerrada com a geração dos Apóstolos; nenhumartigo pode ser acrescentado ao Credo. Assim escreve o Concílio do Vaticano II em sua Constituição Dei Verbum n0 4:
“A dispensação da graça cristã, como aliança nova e definitiva, jamais passará, e já não há que esperar alguma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Tm 6, 14 e Tt 2, 13)”.
Por conseguinte, fica a critério dos fiéis julgar as razões pró e contra a autenticidade de cada “aparição” não condenada pela Igreja e daí tirar a conclusão que mais lógica lhes pareça; é-lhes lícito crer ou não crer nas aparições em foco.
O Papa Bento XIV (1740-1758) publicou as seguintes observações a respeito dos fenômenos extraordinários:
“A aprovação (de aparições) não é mais do que a permissão de as publi­car, para instrução e utilidade dos fiéis, depois de maduro exame. Pois estas revelações assim aprovadas, ainda que não se lhes dê nem possa dar um assentimento de fé católica, devem contudo ser recebidas com fé humana segundo as normas da prudência, que fazem de tais revelações objeto provável e piedosamente aceitável” (De Servorum Dei Beatificatione II, c. 32, 11).
O mesmo foi dito por um Concílio Provincial de Malnes (Bélgica) em 1938:
“O julgamento da Igreja não apresenta de modo nenhum essas coisas como obrigatórias para a fé do povo. Declara apenas que elas não estão em ponto algum em oposição a fé e aos bons costumes, e que nelas encontramos bons indícios que permitem uma adesão piedosa e prudente da fé humana” (Acta et Decreta Concili Provincialis  Mechlinensis Quinti. Malines 1938,  .p 6).
Com outras palavras: Bento XIV quer dizer que a dita “aprovação” da Igreja não é senão uma permissão; atesta que os fenômenos alegados não estão em desacordo com a fé, os costumes e a missão da Igreja. Não pedem adesão de fé divina ou católica¹, mas podem suscitar fé humana, fundamentada no tes­temunho fidedigno dos videntes ou na experiência pessoal (conversão à fé, afervoramento…) de quem aceita esse testemunho.
3) Pode também a Igreja abster-se, de modo geral, de qualquer pronunci­amento a respeito dos fenômenos e do culto prestado em decorrência dos mesmos. É o que acontece na maioria dos casos: não há motivos para conde­nar os fenômenos relatados; nem a saúde mental dos(as) videntes dá lugar a suspeitas nem as mensagens apresentadas por eles contêm alguma heresia ou erro na fé. A Igreja considera os frutos pastorais que decorrem de tais men­sagens: muitos fiéis se beneficiam peregrinando a tal ou tal lugar ou santuário; aí se convertem, recuperam ou adquirem o hábito da prática sacramental, da oração… Em consideração desses frutos, a Igreja deixa que a piedade se desenvolva até haver razões de ordem doutrinária ou moral que exijam algum pronunciamento.
Essa atitude da Igreja, que não aprova nem reprova (por falta de razões objetivas para tanto), mas que permite o culto no local das ditas aparições, é apregoada por mais de um documento da Santa Sé. Assim, por exemplo, es­crevia Pio IX aos 2/5/1877:
“Essas aparições ou revelações não foram aprovadas nem condenadas pela Santa Sé. Foram apenas aceitas como merecedoras de piedosa crença, com fé puramente humana, em vista da tradição de que gozam, também confirmada por testemunhas e documentos idôneos” (citado na encíclica Pascendi nº 57, do Papa Pio X).
Quando não incorrem em erro no tocante à fé ou á Moral, os fenômenos extraordinários têm alto potencial evangelizador, que merece respeito e não pode ser deixado de lado. Aos pastores compete, de um lado, confirmar os irmãos na fé, e, de outro lado, ajudar os fiéis a superar a demasiada credulida­de, para que esta não venha a ser um fator de descrédito da própria mensagem cristã.
Em consequência verifica-se que, enquanto a Igreja não se pronuncia em contrário, fica a critério de cada fiel optar pelo Sim ou pelo Não diante de um fenômeno maravilhoso. Não há por que acusarem  uns aos outros de credulida­de vã ou de incredulidade. Seja respeitada a liberdade de opção de cada um.
Todavia os teólogos propõem elementos que os fiéis devem levar em con­sideração para formar a sua consciência frente ao fenômeno contemporâneo das aparições.
2.2.  Sábias Ponderações
Verifica-se que várias das mensagens atribuídas a Nossa Senhora em nossos dias são marcadas por forte pessimismo. Descrevem a situação do mundo atual em termos apocalípticos: o demônio estaria solto, a corrupção generalizada, os castigos de Deus seriam iminentes, implicando catástrofes de âmbito mundial, condenação dos pecadores e salvação para os justos. São indicadas as datas dos flagelos, a sua duração, os meios de lhes escapar e outros pormenores estarrecedores… Sobre este pano de fundo pedem-se oração e penitência. Este pedido final é excelente, embora as práticas indicadas nem sempre pareçam as mais condizentes com a Tradição cristã. Todavia o teor pessimista da mensagem e as profecias respectivas, assim como a multiplicação de casos ditos de aparição, levam os teólogos e pensadores a propor algumas ponderações:
1) O mundo está vivendo uma situação de crise generalizada: fala-se de fim de uma era ou de uma civilização – o que suscita em muitas pessoas uma forte sensação de insegurança e medo. Tem-se a impressão de que os valores clássicos fracassaram, os recursos tradicionais da economia, da política, da sociologia, da pedagogia… estão gastos; muitos esperam espontaneamente uma solução milagrosa proveniente de fontes não convencionais (“só Deus dá um jeito”, diz-se popularmente).
2) O pessimismo e o desespero de muitos abrem o caminho para se crer no surto de novos Messias e messianismos, que prometem dias melhores, despertando esperança (ainda que pouco ou nada fundamentada). As mensa­gens alvissareiras, quanto mais exuberantes e radicais são, encontram tanto mais facilmente campo propício para se propagarem.
3) O Brasil é muito sacudido por correntes que dizem receber comunica­ções do além: alto e baixo espiritismo, religiões afro-brasileiras, ufologia de várias modalidades, Vale do Amanhecer, Trigueirinho… Os meios de comunicação social exploram o que nessas mensagens haja de fantasioso e sensacio­nalista, ampliando enormemente os efeitos da crença nessas mensagens exóticas.
4) Muitas pessoas se deixam levar pelo sentimentalismo e as emoções mais do que pelo raciocínio e a lógica no tocante à religião. O anti-intelectualismo, suscitado pelo existencialismo, penetrou na religiosidade de numerosos crentes, de modo que poucos pensam em pedir as credenciais ou os motivos de credibilidade das proposições “místicas” que lhes são oferecidas. Pode-se até dizer que, em muitos casos, quanto mais fantasiosa é uma proposição, mais ela chama a atenção e desperta curiosidade e interesse crédulos. Aliás, já diziam os antigos romanos: “Vulgus vult decipi. – A massa quer ser enganada” , o que significa que a verdade nua e crua tem menos poder de atração do que a mentira fantasiosa e colorida.
5) Em virtude dessa indisposição para usar o raciocínio no tocante à reli­gião, muita gente quer ser dirigida; espera um guru ou um líder privilegiado que lhe dite autoritariamente o que deve fazer. Assim há quem queira ser comanda­do, porque não sabe mais como se auto-orientar na sociedade confusa em que vive. Isto constitui autêntico paradoxo em relação aos anseios de independência que caracterizam grande parte dos homens e mulheres de hoje.
São estes alguns fatores que marcam a nossa época e podem estar pro­piciando, de um lado, o surto de muitas mensagens falsamente proféticas, terrificantes umas, alvissareiras outras, e, de outro lado, a rápida e estranha difusão das mesmas. Consciente disto, a Igreja usa sempre de grande cautela desde que se propague a notícia de algum fenômeno extraordinário. Examine­mos mais precisamente quais as normas ditadas por essa prudência.
3.  PRUDÊNCIA
Eis alguns traços que modelam a prudência da Igreja:
1) A Igreja, de um lado, se sente responsável pela conservação incólume da doutrina da fé, de acordo com o mandato de Jesus Cristo (cf. Mt 16, 16-19; Lc 22, 31s; Mt 28, 18-20). Doutro lado, ela sabe que o Espírito Santo pode falar por vias extraordinárias, de tal modo que não lhe é lícito extinguir o Espírito, como diz São Paulo em 1Ts 5,19s.
2) O extraordinário deve ficar sendo sempre extraordinário. Não é a via normal pela qual Deus guia os seus filhos; o normal é a via da fé… fé que se distingue de crendice, pois a fé supõe credenciais ou motivos para crer; a fé não diz Sim a qualquer notícia de portento, mas pergunta: por que deveria eu crer? Qual a autoridade de quem me transmite a notícia? Em que se baseia? Como fala?
3)  Disto se segue que
a) aparições e revelações não devem ser presumidas nem admitidas em primeira instância num juízo precipitado. Os fenômenos alegados hão de ser comprovados ou criteriosamente credenciados;
b) diante de um fenômeno tido como extraordinário, procurem-se, antes do mais, as explicações ordinárias ou naturais (físicas, psicológicas ou parapsicológicas);
c)  é preciso levar em conta a fragilidade humana, sujeita a engano, aluci­nações, sugestões coletivas… Facilmente quem conta um fato acrescenta-lhe ou subtrai-lhe um traço que pode ter importância; em conseqüência um acontecimento explicável por vias naturais pode tornar-se, na boca dos narradores, um fenômeno altamente portentoso. Daí o senso crítico, que deve começar por investigar aquilo de que realmente se trata, para depois procurar a explicação adequada. Leve-se em conta especialmente a tendência dos meios de comuni­cação social a provocar artificiosamente as emoções e o sensacionalismo, sem compromisso sério com a verdade.
4) Toda autêntica aparição há de ser coerente com as linhas e o espírito do Evangelho. Deve confirmar o que este ensina. Por isto
a) as muitas minúcias (quanto a datas, local, duração e tipo dos fenôme­nos preditos) merecem reservas, pois não são habituais na linguagem da Escritura Sagrada. O Senhor Jesus mesmo recusou-se, mais de uma vez, a revelar a data da sua segunda vinda e do fim dos tempos; cf. Mc 13, 32; At 1,7;
b) o que certamente se pode e deve depreender de toda genuína mensa­gem do céu, é a exortação à oração e á penitência; La Salette, Lourdes e Fátima clamam altamente por tais atitudes a ser assumidas pelos fiéis católicos. Dizia o Papa João XXIII, em sua Rádio-mensagem comemorativa do cente­nário de Lourdes, que os dons extraordinários são concedidos aos fieis “não para propor doutrinas novas, mas para guiar a nossa conduta” (18/2/1959).
Em conclusão podem-se citar as palavras de D. Boaventura Kloppenburg:
“Não devemos ter receio de faltar á reverência, ao respeito ou à piedade quando submetemos os fatos maravilhosos a uma crítica severa. A atitude oficial da Igreja sempre foi extremamente exigente e crítica nestas coisas. E as possíveis causas de engano provam a necessidade de sermos prudentes, cau­telosos e reservados. Um verdadeiro milagre e uma autêntica aparição nada têm a temer. Seria, pelo contrário, mau sinal se não quisessem submeter-se de bom grado, paciente e honradamente, a um simples exame crítico. Os gran­des místicos da Igreja não só não se negaram a tal exame, mas exigiram-no. Leia-se o que escreveram, por exemplo, São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila” (O Espiritismo no Brasil, Petrópolis 1960,  p. 168).
¹ A fé divina e católica é a fé que há de ser prestada a Deus por todos os fiéis.
Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb.
Nº 400 – Ano 1995 – Pág. 386

CARLOS TADEU NUNES FICHA DO PAI POLITICO COMUNISTA DE JACAREÍ -

PC do B, PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL, marquinho briga tanto com o comunismo, mas aceita seu padastro de bom grado, na politicagem que foi proibida no ano de 2001.

Marquinho de Jacareí Apariçoes não segue a Igreja, mas não seguir o que ele mesmo pregou é demais, em 2001 marquinho foi proibido de fazer campanha politica, mas o seu pai padastro é politico e ainda do PCB, partido comunista, Marquinho ainda fez campanha para o padastro politico que perdeu a campanha, que tinha apenas interesses políticos, pergunte algum seguidor da seita, o céu está de acordo com a politicagem ou não ?

Em 2016 na Festa da Imaculada, marquinho da uma estatua de cimento pintado de bronze com muita festa e foguetório para o padastro, tantos dias pra festeja união com políticos ele logo fez no dia da imaculada. Com seguir uma seita que não segue o que se proibi ?

QUEM SERÁ O CORVO , QUEM SERÁ O LAGARTO ?

Em cartas secretas de "o segredo de Marcos Tadeu Teixeira

(Nossa Senhora) "- Quero que você diga aos MEUS ESCRAVOS e aos MEUS filhos que EU não quero que se fale de política e nem se façam campanhas políticas aqui no MEU SANTUÁRIO... nem agora, e nem depois que EU não aparecer mais aqui... O MEU SANTUÁRIO é SANTO, e não quero que seja invadido por 'corvos' e 'lagartos', fazendo politicagens e anarquia na MINHA CASA... Ali poderá se falar de CARIDADE, mas não se deverá falar de idéias políticas... Ali é um LUGAR de oração e de respeito, e portanto, quero que O conservem sempre puro..."

(04-03-2001 domingo)
 ESTE TEXTO FOI PUBLICADO POR MARQUINHO

Estes textos constituem em parte os "Segredos de Marcos Tadeu Teixeira" que nunca foram publicados, que agora por vontade DIVINA, DEVEM IR A LUZ DA VERDADE.

Nossa Senhora não quer politicagem em Jacareí mas o Marquinho colocou um político de sócio e não cansa de divulgar e forçar para que as pessoas votem nele, e ainda por cima ameaça em nome de Nossa Senhora e diz que Ela vai mandar castigos porque o político perdeu. Será mesmo que esse vidente é o mais obediente ou seria o mais irresponsável e traidor de todos? Sinceramente eu nunca vi uma pessoa desrespeitar e desafiar tanto como o Marquinho! (Eduardo)

FICHA DO PAI POLITICO CARLOS TADEU

Tadeu Nunes (2008)


Dados pessoais do candidato
Nome completo:
Carlos Tadeu Xavier Nunes
CPF:
3xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Data de nascimento:
28/07/1966
Idade ao final de 2008:
42
Município de nascimento:
Rio Do Antônio /BA
Nacionalidade:
Brasileira
Município de residência:
Rio Do Antônio /BA
Sexo:
Masculino
Estado Civil:
Casado(A)
Grau de Instrução:
Ensino Médio Completo
Ocupação principal declarada:
Professor De Ensino Fundamental
* Saiba como checar o CPF dos políticos e sua situação fiscal
Dados eleitorais do candidato
Cargo disputado:
Vereador
Município onde concorre:
Rio Do Antônio
UF onde concorre:
BA
Nome na urna:
Tadeu Nunes
Número eleitoral:
22123
Nome do partido:
Partido Da República
Sigla/ número do partido:
PR /22
Coligação:

Povo Livre Moralidade Trabalho (PT / PP / PR / PV / PC do B)

Situação da candidatura:
Deferido
Declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral
Descrição do bem
Valor do bem
Uma Linha Telefonica
R$ 200,00
Um Carro Vw Voyage Ano 1988
R$ 6.000,00
Uma Poupança Banco Do Brasil
R$ 25.000,00
Valor total dos bens declarados:
R$ 31.200,00
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Sobre a fonte das informações:
Os dados desta página são todos oficiais e fornecidos pela Justiça Eleitoral, que autorizou a publicação. A busca de Políticos do Brasil possui dados referentes às Eleições de 1998, 2002, 2006, 2008 e 2010. Possíveis incorreções são de responsabilidade exclusiva da Justiça Eleitoral de cada Estado e do Distrito Federal. Nas bases de dados mais antigas (1998 e 2002) procurou-se publicar os registros de todos os políticos vencedores naqueles pleitos e o de derrotados para cargos majoritários. Quando algum dado estiver em branco significa que a informação não está disponível.

noticias.uol.com.br/…/28071966-tadeu-…



domingo, 3 de dezembro de 2017

BIOGRAFIA DE MARCOS TADEU TEIXEIRA -OVIDENTE DE JACAREÍ _SP

O caso de Jacareí

Para compreendermos a modelagem realizada nas aparições de Jacareí é preciso explicitar os grupos e atores envolvidos neste fenômeno e as relações estabelecidas entre eles – pois a modelagem deste evento é realizada pelos grupos que se apropriam do fenômeno em diferentes momentos – lembramos que as manifestações se iniciaram em 1991, desenvolvendo sua configuração ao longo de quase dezoito anos.
Assim, procuraremos aqui demonstrar as relações estabelecidas entre o vidente de Jacareí – Marcos Tadeu – e os diversos atores e/ou grupos envolvidos neste fenômeno, explicitando os fatores que colaboraram para a constituição da legitimidade das aparições, especialmente no final dos anos noventa e início dos anos dois mil, e, por outro lado, os fatores que levaram ao esvaziamento dos Cenáculos, a partir de meados da primeira década deste século.
Constatamos que o sucesso e a legitimidade das aparições estão relacionados a dois fatores: as semelhanças existentes entre elas e as aparições reconhecidas de Nossa Senhora – segundo o padrão estabelecido a partir do século XIX – e a sua inserção na



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rede de aparições marianas contemporâneas através da qual se estabelece a circulação de pessoas e fenômenos e o contato entre os elos, já descritos no capítulo anterior.
O número de elementos e características que compõem uma aparição é bastante amplo, por isso optamos por separá-los em três partes: as características do vidente, do local em que ocorrem os fenômenos e as mensagens transmitidas, destacando as continuidades e as inovações em relação às aparições reconhecidas, especialmente as ocorridas na segunda metade do século XIX e no início do século XX, classificadas por autores como Steil (2003) de “aparições modernas”. Três aparições modernas serão usadas para estabelecer as aproximações com as aparições da atualidade: La Salette, Lourdes e Fátima. Optamos por estas três aparições não apenas pelo período histórico, mas principalmente por serem aparições constantemente mencionadas pelos participantes das manifestações marianas no Brasil – peregrinos e videntes -, e por serem oficialmente reconhecidas e incluídas no “modelo” de aparições estabelecido no século XIX, segundo historiadores do catolicismo.

2.1) O vidente e a RCC


As aparições para o jovem Marcos Tadeu tiveram início em 1991, quando ele era ainda um adolescente de quatorze anos. Logo após as primeiras manifestações, quando o jovem havia contado o fato para sua mãe e para alguns vizinhos, a notícia sobre ela se espalhou rapidamente, por meio do boca-a-boca das primeiras pessoas informadas – sua mãe, alguns amigos e vizinhos.
Durante o ano de 1994 as manifestações continuaram de forma esporádica, sem uma periodicidade, apenas para o vidente, sem público. Neste período foi formado um pequeno grupo de oração, que se reunia diariamente para rezar o terço na casa do vidente. Estes primeiros participantes eram pessoas da localidade, que começaram comentar que aparições de Nossa Senhora estavam acontecendo em seu bairro.
A notícia se espalhou rapidamente, chegando até o pároco de Jacareí e aos integrantes da Renovação Carismática local, que se aproximaram do vidente, apropriando-se da manifestação. Já a postura do pároco foi mais cuidadosa, baseando-se na cautela aconselhada pelo Vaticano, tentando compreender o que se passava com o possível menino vidente.
Logo nos primeiros meses um grupo de carismáticos começou a participar do grupo de orações na casa de Marcos, acreditando na veracidade das aparições de



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Nossa Senhora e encarregando-se de “espalhar” a notícia sobre elas, fato que se deu rapidamente, por meio do acionamento da rede de contatos descrita no primeiro capítulo. Importa destacar que esse grupo não foi apenas responsável pela divulgação dos eventos, mas se apropriou do fenômeno em seus primeiros anos, modelando-o de acordo com o padrão de aparições reconhecidas. A partir do segundo ano das manifestações, elas passaram a ocorrer periodicamente, no sétimo dia de cada mês, data em que ocorreu a primeira visão para Marcos. Os carismáticos organizaram um ritual específico para este dia, que passou a ser chamado de Cenáculo, e contataram cada vez mais gente para a participação das aparições mensais. Devido aos contatos e a organização dos carismáticos, participantes vindos de cidades da região, depois do Estado e de todo o país começaram a participar dos rituais do dia sete, às seis horas da tarde.

Rapidamente este ritual não pôde mais ser realizado na casa de Marcos, devido à falta de espaço. Foi então que os carismáticos se encarregaram de mudar o Cenáculo para o “Monte escolhido por Nossa Senhora”. Já estamos no ano de 1998, e os rituais ainda acontecem no dia sete, no Monte, e recebe peregrinos do país inteiro, e até de outros países. Este é o período áureo das aparições, em que os Cenáculos chegam a contar com cinco mil participantes.
Nesta época, o vidente já possuía várias informações sobre outras aparições de Nossa Senhora, já tinha estado em contato com outros videntes de Maria no Brasil e realizado o circuito de aparições marianas internacionais. Tudo isso devido, em grande parte, ao apoio dos membros da RCC. O contato com outros videntes, por exemplo, ocorreu por meio da intermediação de integrantes da Comunidade Carismática Magnificat, de São José dos Campos, mencionada no primeiro capítulo.
A vidente com quem Marcos possuía contato mais estreito, no final da década de noventa, era Mirna, de Muriaé. Ela era uma das videntes “preferidas” do grupo de carismáticos de São José dos Campos, liderado por Olga, que realizava excursões freqüentes para Muriaé, e organizava a vinda da vidente para São José dos Campos. Por esse motivo Marcos a conheceu, participando das aparições na cidade mineira e das visitas de Mirna a São José dos Campos. Ou seja, pelo contato entre os carismáticos de Jacareí – que apoiavam Marcos – e os carismáticos de São José – liderados por Olga, e que apoiavam Mirna – os videntes se conheceram e passaram a freqüentar cada um os Cenáculos do outro, realizando mesmo visões “coletivas” em que Nossa Senhora se manifestava e transmitia mensagens simultaneamente para ambos.



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Além disso, a participação de Marcos no encontro entre videntes marianos brasileiros, realizado pelo Pe Gobbi em 1999, também ocorreu devido à intermediação dos carismáticos. A Comunidade Carismática Magnificat foi informada de que o sacerdote italiano viria ao Brasil, e que realizaria um encontro entre os videntes de Nossa Senhora. Os carismáticos de Jacareí tomaram, então, a iniciativa de contatar Pe Gobbi e de indicar a presença de Marcos, que foi aceita pelo sacerdote.
A viagem de Marcos pelos Santuários marianos europeus, realizada no ano de 1998, foi também patrocinada pelos carismáticos de Jacareí, que organizaram uma “ação” para que os freqüentadores das aparições, bem como carismáticos de outras localidades, doassem alguma quantia em dinheiro para que Marcos pudesse viajar.
Dessa maneira, a apropriação da aparição pelos carismáticos, durante a década de noventa, foi fundamental para a constituição dos rituais e para a legitimação das manifestações. Através deles as aparições foram divulgadas e se tornaram legítimas, por meio da aproximação com as manifestações marianas reconhecidas. Os carismáticos também foram muito importantes para a “formação” do vidente, inserindo-o no universo das aparições marianas, informando-o sobre as características de outras manifestações, fornecendo-lhe detalhes sobre elas.

3) As aparições de Jacareí: a modelagem e a produção da legitimidade


No caso das aparições de Nossa Senhora em Jacareí a continuidade simbólica é central na atribuição de legitimidade ao fenômeno. Nelas a legitimidade é obtida a partir do reconhecimento das semelhanças com as aparições reconhecidas, que é percebido como o padrão instituído no final do século XIX. Ou seja, as novas aparições, como Jacareí, para se legitimarem devem passar pelo processo de modelagem sugerido por Claverie (2003) e adotar a forma de aparições reconhecidas.
Nesse sentido, notamos que a semelhança com as aparições reconhecidas é constante, sendo percebida positivamente pelos participantes, que a utilizam como exemplo da veracidade dos fenômenos, e não como plágio, imitação. Ou seja, o fato da aparição de Jacareí ser muito semelhante às manifestações anteriores e reconhecidas serve como “prova” de sua veracidade para os devotos.
A continuidade simbólica é observada em três aspectos principais, que serão analisados neste capítulo: a personalidade do vidente, as características do local da aparição- o Santuário -, e o conteúdo das manifestações – as mensagens proferidas.



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Importa destacar que várias destas semelhanças não estavam presentes nos primeiros relatos sobre as aparições, tendo sido acrescentadas ao longo do tempo, já nos primeiros anos dos eventos.
Por isso consideramos que a legitimidade deste fenômeno é advinda, em parte, da sua modelagem ao padrão de aparições reconhecidas. Nesse ponto notamos novamente a importância da RCC, pois, nos primeiros anos das aparições, quando Marcos ainda era um garoto, os membros do movimento, que possuíam contato e conhecimento sobre aparições marianas, passaram a moldar a aparição, acrescentando-lhe elementos simbólicos e características semelhantes aos presentes nos fenômenos reconhecidos - a construção do Santuário, o relato das aparições e as características do vidente foram se aproximando do padrão legítimo.
Assim, na primeira década da aparição os carismáticos, como detentores do conhecimento sobre as aparições marianas legítimas e do contato com outras manifestações semelhantes, possuindo capital simbólico acumulado – obtido pela informação e circulação pelos Santuários reconhecidos - moldam o evento de Jacareí.

Estas características das aparições marianas nos remetem ao estudo de Pierre Bourdieu (1975) sobre o costureiro e sua griffe, em que ele aborda a produção da legitimidade de um produto – no caso estudado os produtos de griffe – como um processo de “alquimia social”, em que ocorre a trans-substancialização de um produto qualquer em um produto de griffe, por meio da assinatura do costureiro – mesmo que ele não tenha sido o produtor direto do produto, como no caso dos perfumes - sendo o valor simbólico atribuído a este produto – por possuir o nome da maison - que lhe concede legitimidade.
Importa-nos reter que a alquimia social somente obtém sucesso quando o criador possui capital simbólico – para que possa transferi-lo ao produto através de sua assinatura – e que a aquisição deste capital de autoridade somente acontece por meio da relação do criador com as maisons antigas e legítimas. Segundo Bourdieu, as rupturas de sucesso são aquelas em que os “novos” criadores são advindos das maisons antigas, sendo que o seu capital de autoridade foi obtido pela passagem por elas. Para Bourdieu, os pretendentes acumulam capital de autoridade levando a sério os valores e virtudes da representação oficial, eles podem acumular capital simbólico pelo contato e conhecimento com os elementos importantes em um determinado campo. Esses valores devem ser obedecidos – os pretendentes devem estar de acordo com as necessidades





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estabelecidas pelo campo – para a obtenção de sucesso. Assim, a busca da legitimidade dos pretendentes passa pela submissão às necessidades próprias de cada campo.
A análise dos processos simbólicos de produção de legitimidade nos ajuda a compreender melhor a centralidade da modelagem na produção da crença na veracidade da aparição. Para que uma nova aparição adquira legitimidade é preciso que ela se submeta as regras presentes nessa rede, sendo que isso ocorre por meio de seus agentes
– participantes e videntes. Em Jacareí a adoção de uma série de símbolos e valores que são característicos desse tipo de fenômeno, ou seja, que pertencem às aparições marianas, é central para a constituição da legitimidade da aparição.
Novamente ressaltamos o papel central dos membros da RCC neste processo, pois nos primeiros anos da aparição eles são os detentores do capital de autoridade necessário para inserir esta manifestação na rede das aparições marianas, pois tem conhecimento sobre esses fenômenos – suas características e seu conteúdo - e circulam por outras manifestações do mesmo tipo – como demonstrado no primeiro capítulo.

Esse processo é simbólico e social. A modelagem é parte importante da produção da autenticidade da crença nas aparições. Os peregrinos, ao reconhecerem os elementos e símbolos das aparições legítimas, tendem a crer nos “novos” fenômenos – como Medjugorje e Jacareí. Para uma aparição ser percebida como verídica é fundamental que ela acione elementos simbólicos dos eventos reconhecidos.
Neste processo de construção simbólica o vidente assume papel central, pois ele constitui parte do padrão. Para que a autenticidade da crença nas aparições seja constituída o vidente deve possuir traços de personalidade que, na percepção dos peregrinos, evidenciem o seu dom. Para eles, Maria não se comunicaria com “qualquer um”, mas apenas com uma pessoa “especial”. A raridade do vidente deve, pois, ser “provada” pelos seus traços de personalidade, que o tornam semelhante aos videntes marianos reconhecidos, sendo ele também modelado.
Lembramos que a fonte da sacralidade das manifestações encontra-se na convicção do outro, no caso, dos peregrinos. A modelagem do fenômeno e do vidente contribui para a formação desta convicção. A sua realização permite que os peregrinos percebam o fenômeno como autêntico, devido ao reconhecimento dos elementos simbólicos e dos traços de personalidade acionados. Passamos agora a análise do processo de modelagem.





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3.1) A história


A) Quem é estE Jovem?

Segundo o relato, a primeira aparição acontece em sete de fevereiro de 1991, quando o jovem Marcos Tadeu, na época um menino de 13 anos, está voltando para a casa e se sente “chamado” a entrar em uma Igreja e a orar. Enquanto realiza as orações aparece-lhe uma figura, uma jovem de cerca de dezoito anos, de uma beleza indescritível e toda iluminada. A jovem não se identifica, apenas o convida a oração.
As manifestações, ainda esparsas, prosseguem durante dois anos, nos quais a “Senhora” apenas dizia que vinha do Céu, que estava a serviço de Deus, sendo somente em 19 de fevereiro de 1993, devido a grande insistência de Marcos, que pergunta quatro vezes “quem é a Senhora”, que a jovem lhe responde: “Eu sou a mãe de Jesus”.

Duas características das aparições já podem ser observadas nesta história: a demora na identificação da figura e a maternidade de Maria – em sua frase de identificação ela se coloca como Mãe, no caso mãe de Jesus54. Analisaremos a importância da maternidade de Nossa Senhora a seguir, antes devemos aprofundar a não identificação da aparição.

A demora em se identificar aproxima as aparições de Jacareí das aparições modernas, em que a aparição não se identifica de imediato. Citamos aqui os exemplos de Lourdes e de Fátima, em que a figura que transmite as mensagens apenas se identifica no último dos encontros com os videntes. Em Lourdes, é somente na última das dezoito manifestações que a jovem diz ser a Imaculada Conceição. Em Fátima é também no último dos sete encontros com os pastores que a Senhora se identifica como Nossa Senhora do Rosário.
Inclusive a forma como ocorre a identificação é semelhante, a aparição não diz apenas ser Maria, mas acrescenta uma denominação específica, utilizando os seguintes termos:
“Eu sou a Imaculada Conceição” – Lourdes “Eu sou Nossa Senhora do Rosário” – Fátima

“Sou a SENHORA DA PAZ! Sou a MÃE DE JESUS! – Jacareí
 



54 A referência à maternidade, inclusive, já estava presente nos relatos de Marcos sobre as conversas com a “Senhora”, em que ela o chamava de “meu filho”, também se referindo ao restante da humanidade como “meus filhos”.





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Assim, no que se refere ao relato da aparição de Jacareí, o suspense em relação à identidade da “figura luminosa” é semelhante ao ocorrido nas aparições modernas. Mesmo existindo várias evidências que permitem a classificação da aparição como Nossa Senhora, o relato é construído de forma a deixar clara a demora proposital da Virgem em revelar sua identidade.
Já na segunda aparição, em 19 de fevereiro de 1991, a Jovem – segundo eles não identificada – transmite a seguinte mensagem: “Sim, meu filho, por que eu o amo...

Mas não quero que venha sozinho, traga aqui também muitos dos meus filhos que Eu amo...” Ora, todos os católicos sabem quem é a “ figura iluminada” que pode se referir a eles como “meus filhos”! A concepção de Maria como “Mãe da humanidade” é recorrente e comum no catolicismo, não sendo preciso ser devoto das aparições para chamá-la de “Mãe”. Assim, todos já sabiam que a Jovem era, na verdade, Nossa Senhora, entretanto, isso somente é explicitado cerca de dois anos depois.

Corria na região o comentário de que Maria “estava aparecendo para um menino em Jacareí”, ele circulava entre os católicos, especialmente os ligados ao movimento carismático. A mídia local – pelos jornais Diário de Jacareí e Vale Paraibano – já tinha dedicado reportagens sobre o fenômeno, referindo-se a ele como “aparições de Nossa Senhora”. Ou seja, o público já considerava a figura como Maria, embora isso não tivesse sido dito pelo vidente.
Esta é, pois, uma primeira característica que demonstra a reiteração do padrão de aparições reconhecidas. Mesmo as mensagens deixando claro que se tratava de Nossa Senhora – além de referir-se aos homens como “meus filhos” o vidente a chama de “Jovem Senhora”, pois a figura que ele descreve aparenta ter dezoito anos – o “mistério” em torno da sua identidade permanece.

3.2) O Santuário


A) As aparições em local ermo

A primeira aparição de Nossa Senhora para Marcos Tadeu ocorreu na Igreja da Imaculada Conceição, na zona urbana da cidade de Jacareí. Durante os dois anos seguintes as aparições ocorriam no local onde o vidente estivesse – em sua casa, na maioria dos casos. Entretanto, a partir de seis de Março de 1993, segundo ele, Maria lhe avisa que passaria a vir todos os dias, por volta das dezoito horas e trinta minutos. É neste período também que “Ela” avisa que começará a aparecer no “Monte”.



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O “Monte” é uma localidade próxima à casa de Marcos, na Zona Rural de Jacareí. Trata-se de uma montanha como qualquer outra da região, sem nenhuma característica especial, um local ermo, deserto e de difícil acesso. Neste local, posteriormente, teve início a construção de um Santuário dedicado a Nossa Senhora.
Novamente aqui percebemos a aproximação com as aparições modernas. As aparições de Lourdes, Fátima e La Salette também ocorreram em lugares desertos, na zona rural, para crianças pastoras que estavam cuidando do gado. Esta é uma característica do modelo de aparições presente a partir da segunda metade do século XIX, e que difere das manifestações da Idade Média, que aconteciam em capelas ou mosteiros, em lugares fechados, e não em meio à natureza como as três aparições mencionadas. Em Lourdes a Virgem aparece em uma grota, em Fátima na “Cova da Iria”, e seus Santuários foram construídos no exato local onde, segundo o relato dos videntes, Maria lhes aparecia – em Lourdes houve a construção da catedral sobre a rocha da grota onde Bernadette dizia ver Nossa Senhora, sendo que no ponto exato da aparição há uma imagem reproduzindo a Virgem; em Fátima a Catedral foi construída ao lado da Azinheira sobre a qual Maria aparecia para os três pastores.

Dessa forma, a transferência do lugar das aparições para uma montanha busca uma aproximação com importantes manifestações marianas. Por meio dela, cria-se uma história semelhante ao modelo que obteve sucesso nas aparições européias apoiadas pela Igreja – a localidade deserta, próxima da natureza.
A mudança no local das manifestações ocorre no momento em que o número de peregrinações para Jacareí aumenta devido à intervenção do movimento carismático - lideranças da RCC entram em contato com o vidente, se apropriam da manifestação e começam a divulgá-las por meio de suas redes. Nesse período sendo Marcos ainda um adolescente, os grupos carismáticos dão o tom das manifestações sendo que o novo local para as aparições é estabelecido por intermédio dos membros da RCC55. Notamos novamente que essas semelhanças são implantadas em Jacareí ao longo do tempo, não estando presentes em um primeiro momento.
 






55 Entretanto, não possuímos muitos dados sobre este período, pois o vidente, alguns anos depois, rompeu com os carismáticos, não nos dando indicações sobre as pessoas envolvidas. As informações obtidas foram através de conversas com os participantes atuais, mas estes não conheceram os carismáticos, pois ainda não participavam das manifestações nesta época, apenas sabem um pouco do que aconteceu, como a apropriação dos Cenáculos pela RCC e a posterior ruptura entre o vidente e o movimento.




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B) O ponto da aparição

Há um local específico no Monte onde os peregrinos acreditam que Nossa Senhora se manifeste, é o ponto em que Marcos diz ver Maria. Este espaço fica ao lado da capela, e a entrada dos peregrinos é proibida. Somente as pessoas autorizadas, pertencentes ao grupo de apoio, têm acesso a ele.
A existência de um local específico no Santuário em que a Virgem se manifesta é também uma característica recorrente nas aparições reconhecidas. Lembramos os Santuários de Lourdes e de Fátima, por exemplo. Em Lourdes, segundo a crença, Nossa Senhora apareceu para Santa Bernadette em uma grota, e este local tornou-se ícone de devoção para os peregrinos. A imagem da Virgem de Lourdes foi colocada no local exato da aparição, e a passagem diante dela, tocando, beijando o ponto em que acreditam que a Virgem esteve presente é parte central da visita ao Santuário - diante da grota foram colocados vários bancos, em que os peregrinos passam horas orando e pedindo graças para Nossa Senhora de Lourdes.

Em Fátima, segundo os relatos, Nossa Senhora apareceu para os pastores sobre uma azinheira. Esta árvore também possui uma conotação importante para os peregrinos - todas as suas folhas e galhos foram arrancados por eles, como uma relíquia. No local foi plantada uma nova azinheira, diante da qual os peregrinos realizam suas orações. Entretanto, embora lembre o local em que a Virgem esteve presente, não se trata de um ponto central para os peregrinos – como a grota em Lourdes – pois a árvore original, aquela que acreditam ter sido tocada por Nossa Senhora, não existe mais, ou seja, o ponto exato com o qual Maria esteve em contato desapareceu, justamente devido à devoção dos peregrinos anteriores, que quiseram levar consigo uma folha, um galho, ou seja, uma parte do que fora tocado pela Virgem.
Em Jacareí também o espaço “tocado por Nossa Senhora” possui uma importância especial, entretanto, esta relevância é atribuída pelo vidente e pelos integrantes do grupo de apoio, que restringem o acesso ao local. Os peregrinos não se importam muito com esta restrição, não há, como em Fátima e Lourdes, manifestações de desejo ou ressentimento por não poderem estar em contato com o espaço que acreditam ter sido tocado por Nossa Senhora.
Há, pois, uma ambigüidade no que se refere à importância atribuída a esse local. Para os responsáveis pelo Cenáculo – vidente e grupo de apoio – ele é central, não devendo ser tocado por “qualquer um”. Para os peregrinos ele é um espaço sem maior

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relevância. Os integrantes do grupo de apoio, por estarem mais envolvidos com o fenômeno e por possuírem um maior conhecimento sobre aparições marianas, consideram este ponto como sagrado, devendo ser preservado – fazem referência à grota de Lourdes e a árvore de Fátima, lembrando a sacralidade dos locais “tocados” por Maria. 56

Já no caso dos peregrinos há uma indiferença sobre este local, embora acreditem ser um local “tocado” por Nossa Senhora. Isso ocorre porque, diferentemente de Lourdes e Fátima, as aparições de Jacareí continuam acontecendo mensalmente. Dessa maneira, estão lá no mesmo momento que a Virgem. Essas pessoas sempre mencionam a importância de “estarem lá” no dia do Cenáculo, ou seja, no mesmo dia e no mesmo horário que Nossa Senhora. Assim, o local tocado pela Virgem não possui a centralidade dos Santuários da modernidade devido à simultaneidade no tempo/espaço. Trata-se do mesmo espaço – o Santuário – e o mesmo tempo – ao meio dia dos segundos domingos. Nos Santuários marianos citados anteriormente isso não é considerado possível, pois as aparições deixaram de acontecer há muitos anos, sendo que o espaço tocado por Maria é o que resta da sua presença no Santuário.

Dessa forma, a especificação de um lugar para as manifestações da Virgem demonstra novamente o funcionamento da operação de modelagem. O vidente e os integrantes do grupo de apoio têm conhecimento da centralidade do ponto tocado pela Virgem nos Santuários marianos, e, ao construírem o Santuário de Jacareí, estabelecem um ponto exato para a manifestação, procurando atribuir valor especial a ele. A importância deste ponto no Monte é recente – desde 2006, por iniciativa do vidente - segundo Marcos, Maria passou a se manifestar ao lado esquerdo da capela recém construída, e “pediu” para restringir o acesso ao local.
Assim, a proibição do contato dos peregrinos com o local da aparição, além de demarcar o poder do grupo de apoio, coloca em evidência este espaço e o valoriza. Ou seja, ao impedir a permanência dos peregrinos neste local, destaca que ele não é um ponto como os de mais do Santuário, mas sim é o espaço tocado por Nossa Senhora. Com isso modelam simbolicamente o Santuário a partir dos padrões presentes nos grandes Santuários de aparições marianas.
 



56 Além disso, esta é também uma forma de demarcação de espaços de poder, pois apenas os iniciados, ou seja, as pessoas que possuem um envolvimento maior com as manifestações – e não os peregrinos que apenas participam mensalmente dos Cenáculos – podem estar em contato com o ponto exato em que Nossa Senhora se manifesta.




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Há, porém, uma ambigüidade em relação às manifestações marianas contemporâneas no que se refere à questão do espaço. Atualmente as aparições acontecem onde o vidente estiver – esta é uma característica presente na aparição de Medjugorje e que se repete em Jacareí e em outras manifestações de Nossa Senhora no Brasil, como demonstramos no primeiro capítulo. Apesar disso, a importância da construção de um Santuário, de um local específico para a realização dos Cenáculos ainda se faz presente, como fica claro no caso analisado. Ou seja, apesar da circulação de Marcos Tadeu por paróquias da região e de sua peregrinação para outros locais de aparição, tendo visões e realizando a peregrinação da própria Nossa Senhora, a existência de um Santuário, que segue as características dos Santuários marianos europeus ainda é uma característica marcante deste fenômeno.
As aparições contemporâneas possuem Santuários, como é o caso de Medjugorje. Apesar da circulação de seus videntes, a vila na Bósnia tornou-se um Santuário de peregrinações, como demonstrado por Claverie (2003) em seu estudo sobre estas aparições. Outras aparições brasileiras, como a de Piedade das Gerais, analisada por Almeida (2004), também são marcadas pela circulação das videntes e pela formação de um Santuário no local. Assim, embora a circulação das manifestações seja uma característica importante das aparições contemporâneas, a construção de Santuários nestes locais não pode ser considerada secundária – eles são destinos de numerosas peregrinações. Esse tema foi detalhado em capítulo anterior. Aqui devemos destacar apenas que os Santuários contemporâneos são espacial e simbolicamente construídos de acordo com o modelo de Santuário das aparições modernas.

C) A fonte

No “Monte” escolhido por Nossa Senhora, segundo os devotos, existe um pequeno riacho, que mal chega a ser um córrego, que corta o local. A água deste córrego é considerada miraculosa, e os freqüentadores a consomem durante os Cenáculos e a levam para suas casas, oferecendo-a para pessoas que precisam de “graças”.
Há uma série de relatos sobre o poder milagroso deste água, considerada capaz de curar males físicos e espirituais. Cito o exemplo de uma senhora, de São Paulo, que afirma ter superado a depressão após a morte de seu marido devido à água de Jacareí, por isso vai todo mês ao Cenáculo para “ver Nossa Senhora” e leva um recipiente da água para sua casa, bebendo um pouco a cada dia e deixando uma reserva



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constante para amigos, familiares e conhecidos que eventualmente possam precisar. A água pode ser oferecida para curar todo e qualquer mal, desde um simples resfriado até alcoolismo e desemprego. Uma outra peregrina relata que conseguiu curar seu genro, que estava “perdido na bebida” fazendo-o beber um pouco a cada dia da água de Jacareí. E o rapaz, mesmo sem ter conhecimento de que bebia da “água milagrosa”, acabou por se curar, abandonando o álcool. Estes são apenas dois exemplos dos “milagres e curas” que a água de Jacareí é capaz de realizar. Devido à crença em seu poder é comum observarmos vários peregrinos, no dia do Cenáculo, com recipientes vazios, que serão utilizados para levar a água do Santuário.
A presença da água e a atribuição de poder milagroso a ela nos remete a uma das aparições marianas mais conhecidas no catolicismo: Lourdes – o Santuário mariano mais visitado no mundo. Em Lourdes, segundo a história, Maria aparece para Santa Bernadette em uma grota e, em uma das aparições lhe mostra uma mina d’água que diz ter poder de cura de todos os males. Desde então a água de Lourdes adquire centralidade no Santuário, sendo que desde o século XIX os peregrinos tomam a água e banham-se nela - no local foram instaladas torneiras e piscinas utilizando a água da fonte.

A crença no poder de cura da água de Lourdes é de grande importância no Santuário, sendo que inúmeras pessoas realizam a peregrinação para se banharem nas piscinas, acreditando que obterão a cura após a imersão nestas águas. Os peregrinos também levam a água para suas cidades de origem, para oferecer aos amigos e parentes e para usá-la em alguma eventualidade ou urgência. Os relatos de milagres realizados pela água são inúmeros, reconhecidos e não reconhecidos, estando presentes desde os primeiros anos do Santuário.
Lourdes é o Santuário mariano com o maior número de milagres reconhecidos – sessenta e oito – graças ao cuidado dos administradores na coleta dos relatos de curas, de dados médicos e testemunhos associados a elas, sendo tudo fartamente documentado e organizado em forma de dossiês. Interessa destacar que a maioria destes milagres tem relação com a “água de Lourdes”.
A história e os relatos presentes em Jacareí são semelhantes aos presentes em Lourdes. Além da aparição ocorrer em um local ermo, junto da natureza, há a presença de um riacho, ao qual é associado um poder milagroso, sendo que a forma de utilização da água, bem como os relatos de curas também são semelhantes. Nos dois Santuários os peregrinos bebem da água e a levam para casa, para si e para os conhecidos, acreditando que ela lhes trará benefícios. Como em Lourdes, não é preciso



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que a pessoa doente vá ao santuário; há relatos de milagres em que a cura ocorreu apenas por beber a água transportada por algum peregrino, como os casos mencionados anteriormente.
O Santuário francês está muito melhor estruturado em torna da utilização da água do que Jacareí. Há piscinas, e garrafas reproduzindo a imagem da Virgem são vendidas em todo o Santuário, para que os peregrinos possam transportar a “água milagrosa”. Já em Jacareí tudo ainda é improvisado, sendo que os peregrinos bebem a água diretamente do córrego e trazem garrafas de plástico para transportá-la. Entretanto, as torneiras já estão colocadas – embora ainda não funcionem – e há uma piscina para ser instalada; ou seja, a reprodução do padrão de Lourdes não está apenas no uso da água, mas na própria estruturação física do Santuário. Em Jacareí o uso milagroso da água é, pois, um elemento a mais na modelagem do Santuário. É interessante notar que a menção a água não estava presente nos relatos dos primeiros anos das aparições, sendo apenas a partir da transferência do local dos eventos que ela passa a ser referida pelo vidente e utilizada pelos fiéis.

Dois atores se destacam como únicos na modelagem das aparições de Jacareí: os carismáticos e o vidente. Nos primeiros anos da aparição, quando Marcos é ainda um adolescente, grupos carismáticos da região, principalmente de São José dos Campos, se apropriam do fenômeno e o reorganizam. Eles são os responsáveis pela escolha do local para o Santuário, bem como pela elaboração do relato sobre as aparições, que mais tarde é publicada em livros e CDs, tornando-se a versão “oficial” sobre as manifestações, hoje reproduzida pelos participantes e pelos integrantes de Jacareí – vidente e grupo de apoio. Por volta de 2001, quando Marcos já é um jovem adulto, ocorre a ruptura com o movimento carismático. A partir de então o vidente passa a exercer a liderança absoluta sobre a aparição, sendo acompanhado por um pequeno grupo de pessoas, que não possui vínculo com nenhum movimento da Igreja. Neste momento Marcos já tem conhecimento e contato com outras manifestações marianas no Brasil, bem como já realizou a peregrinação para os Santuários marianos europeus. A partir de então a modelagem das aparições passa a ser realizada pelo próprio vidente, que não admite interferências sobre as suas “ordens”, sempre atribuídas a Nossa Senhora – como nos casos da atribuição de poder milagroso à água e a escolha de um ponto específico para as aparições.







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D) O cruzeiro

No monte das aparições existe um cruzeiro, localizado no alto de uma montanha em frente ao local em que está sendo construída a capela. Há duas montanhas no Santuário, uma onde está a capela e a outra, bem mais alta, onde se encontra o cruzeiro. Este local é utilizado pelos peregrinos para o “pagamento de promessas”, ou seja, vários fiéis realizam promessas para Nossa Senhora, para que consigam obter alguma “graça”, como cura de doenças, emprego, entre outros. Caso a graça seja obtida eles devem subir o morro do cruzeiro.
Esta característica novamente aproxima o Santuário de Jacareí dos Santuários Marianos reconhecidos, em que há um local específico para o pagamento de promessas. O exemplo de Fátima é o mais importante e impactante, pois logo na chegada do Santuário há uma enorme esplanada, diante da capela, que é atravessada de joelhos pelas pessoas que acreditam ter obtido alguma graça de Nossa Senhora. Todos os dias há dezenas de pessoas pagando suas promessas na esplanada de Fátima. Em Lourdes também há uma montanha, que reproduz a via crucis, subida pelos pagadores de promessa – como em Lourdes o Santuário é bastante institucionalizado, houve uma aproximação entre o sacrifício dos peregrinos e o sacrifício de Jesus Cristo ao subir o Monte das Oliveiras. Já em Fátima a tônica está no sacrifício humano, desde o primeiro momento há o impacto da capela e sua esplanada repleta de pessoas se arrastando de joelhos. Dessa maneira, se em Lourdes a ênfase do Santuário encontra-se no poder milagroso da água, em Fátima o sacrifício é o elemento central57.

Entretanto, devemos destacar que a crença na necessidade de retribuição das graças obtidas por meio de sacrifícios não é uma característica presente apenas nos Santuários Marianos; pelo contrário, trata-se de uma prática muito recorrente no catolicismo, sendo que na grande maioria dos Santuários existe algum local utilizado pelos peregrinos para realizar seu sacrifício.
Lembramos o estudo realizado por Steil (1996) sobre o Santuário do Bom Jesus da Lapa, em que a própria realização da peregrinação é considerada pelos fiéis como o cumprimento da promessa, ou seja, o deslocamento até o Santuário é um sacrifício, devido a todas as dificuldades que se sucedem – a viagem de caminhão, dormir ao relento, cozinhar ao ar livre – tudo é percebido como um grande sacrifício
 

57 A ênfase no sacrifício está em parte relacionada com a crença na escatologia, na proximidade do Juízo final, por isso ele é mais presente e evidente em Fátima, onde os elementos escatológicos eram centrais nas mensagens de Maria, do que em Lourdes, em que a enfase encontra-se na cura e nos milagres, sendo que a escatologia não faz parte dos elementos simbólicos desta aparição.




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realizado em troca de alguma graça recebida do Bom Jesus58. Toda peregrinação é estruturada em torno da promessa e do seu pagamento, sendo a reciprocidade chave nas peregrinações do catolicismo popular.

Nos dois Santuários marianos mencionados também ocorre a institucionalização do sacrifício. Ambos são desde a sua fundação administrados por ordens religiosas e possuem práticas bastante institucionalizadas, ou seja, há uma adequação à doutrina católica que procura evitar “exageros”. Ora, apesar do sacrifício não ser um elemento estranho ao catolicismo, a sua utilização deixou de ser enfatizada pela Igreja – embora tenha permanecido nas práticas populares da religião. No caso dos Santuários de Lourdes e Fátima houve a institucionalização de uma prática típica da religiosidade popular, que acabou sendo integrada a eles – em Fátima, por exemplo, a esplanada foi impermebializada, de forma a diminuir as dores dos pagadores de promessa, mantendo-se a crença, mas sem enfocar as dores físicas da promessa.

A colocação do cruzeiro no Santuário de Jacareí, transformando a colina no local dedicado pelos peregrinos para o pagamento de suas promessas com a Virgem, nos remete para práticas religiosas profundamente arraigadas no catolicismo brasileiro, como as promessas e devoção aos Santos – no caso, a Nossa Senhora.
Nesse sentido, procuramos mostrar que embora a promessa e o seu cumprimento não sejam centrais nas peregrinações contemporâneas; elas não estão, no entanto, ausentes nestes fenômenos, sendo definido, inclusive, um local específico para a sua realização, embora secundário. Além disso, a peregrinação propriamente dita não é percebida como um sacrifício ou uma obrigação com a Virgem, característica central das peregrinações do catolicismo popular.

3.3) O Vidente

Para que os fenômenos fossem percebidos como legítimos era preciso que o vidente também o fosse. Dessa forma, simultaneamente a modelagem das aparições foi sendo realizada a modelagem do vidente. Por isso a importância das características e valores do vidente, pois são elas que lhe atribuem raridade.
O vidente tem que ser percebido como dotado de valor e raridade para que possa transferir raridade e valor para seu produto – as suas visões. Desde o início das
 

58 A importância da peregrinação no catolicismo popular e a sua percepção como uma forma de retribuição ao santo foi analisada no capitulo anterior. Neste item importa destacar a existência do cruzeiro no Santuário de Jacareí, e o seu uso para o pagamento de promessas dos peregrinos, de forma semelhante às praticas da religiosidade popular e também dos Santuários marianos europeus.




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manifestações alguns valores do vidente são destacados, como a humildade e a inocência – estes são dois valores importantes nos videntes de Nossa Senhora – sendo considerados atributos que demonstram que a pessoa foi um “escolhida” de Maria, ou seja, é um vidente legítimo.
Como sugere Bourdieu, para que um criador atribua raridade a um produto ele próprio tem de ser percebido como raro. É a raridade do criador que faz a raridade do produto. Ou seja, “produzindo a raridade do produtor que o campo da produção simbólica produz a raridade do produto” (1975:21). Assim, a excepcionalidade do vidente também deve ser produzida para que a aparição seja considerada verídica.
A figura central das aparições, além de Nossa Senhora, é o vidente – pessoa considerada “escolhida” pela Virgem para receber as suas mensagens. Como observado em relação ao Santuário, há também características do vidente que são importantes para a atribuição de legitimidade à aparição e ao próprio vidente. Analisando as falas dos participantes sobre Marcos constatamos que as características que eles ressaltam estão relacionadas à sua personalidade – de pessoa “humilde” e “inocente” – e a sua história de vida – marcada por sacrifícios e provações, e sem pecados. Assim, para o vidente ser considerado legítimo – e não um farsante, mentiroso, charlatão, louco – ele deve convencer o público da veracidade do evento, sendo que a história de sua vida e suas características pessoais constituem parte importante desse processo de legitimação.

Estes elementos – a história do vidente e sua personalidade - também são levados em conta no processo de reconhecimento da Igreja. A história de vida é significativa antes, durante e após os eventos. Antes, porque ele deve demonstrar possuir os valores que levaram a Virgem a “escolher” aquele indivíduo, sendo que a “humildade” e a “inocência” do vidente são importantes. Durante porque o vidente deve provar sua sanidade mental – são visões, e não alucinações – e seu não charlatanismo – pela ausência de interesses financeiros. Após, pelo chamado “testemunho de vida”, ou seja, o vidente deve ter uma postura considerada correta pela Igreja, demonstrando a presença do contato divino em sua pessoa por meio de uma conduta “exemplar”.
Nesse sentido, a aproximação com as aparições modernas é novamente notada, pois as características mencionadas são observadas nos videntes das aparições reconhecidas. Os atributos destacados de Marcos são semelhantes aos destacados nos videntes do final do século XIX e início do século XX. Devemos, pois, analisar cada uma destas características importantes para a excepcionalidade do vidente frente aos devotos e à instituição.



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A) A Inocência e a Humildade

A “humildade” e a “inocência” de Marcos Tadeu são duas características constantemente reiteradas pelos participantes. A humildade é demonstrada, para eles, pela sua situação econômica – sendo originário das camadas populares – e pelo fato de não possuir um grau elevado de educação formal, especialmente no momento da primeira aparição de Nossa Senhora.
A “inocência” também está relacionada a pouca educação formal do vidente durante as primeiras manifestações, bem como a sua juventude neste período – ele tinha treze anos em 1991, quando ocorreram as primeiras visões – sendo ambas consideradas como “provas” da sua inocência, ou seja, de sua incapacidade em manipular ou inventar as aparições.

Estas duas características – a inocência e a humildade – são consideradas importantes para a “escolha” feita por Nossa Senhora. Na percepção dos devotos, Marcos era um jovem comum, pobre, humilde, inocente, e justamente por ser tão comum, por possuir as mesmas características que vários outros adolescentes da sua idade – sem possuir nada de “especial”, nada que o colocasse em destaque – ele é escolhido por Maria para ser o intermediário de suas mensagens.
Ou seja, a excepcionalidade do vidente se funda justamente em não ter nada de especial, em ser mais um jovem pobre e sem instrução. No entanto, é um jovem pobre e humilde que aceita a missão de divulgar as mensagens transmitidas pela Virgem, e todas as provações, sacrifícios e perseguições conseqüentes desta tarefa. Assim, apesar das características que o enquadram como “mais um”, sem nada de especial, a perseverança e fortaleza do vidente em cumprir a sua missão são também destacadas.
Os traços de personalidade de Marcos – humildade e inocência, mas acompanhadas da fortaleza e perseverança, fundamentais para que divulgue as mensagens de Maria - nos remetem à outra vidente mariana, já canonizada: Santa Bernadette, a vidente de Lourdes. Segundo Ruth Harris, a simplicidade e a pobreza de Bernadette são essenciais para o seu reconhecimento pelo povo. Em suas palavras “sa simplicité, son regarde direct, son patois faisaient partie integrante du message de notre dame de Lourdes. En la choisissant, la Vierge avait distingué les pauvres et les ignorants.” (2001:195).



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Entretanto, apesar da ignorância extrema de Bernadette – considerada prova de sua inocência –, ela era muito forte, tendo passado por várias provações – como xingamentos e desprezo por parte das autoridades locais e dos padres e bispos – mas persistindo em seu relato. Assim, como Bernadette, as virtudes destacadas de Marcos Tadeu estão relacionas a sua humildade e inocência. No entanto, também como a vidente de Lourdes, apesar de humilde, ele é forte, sendo capaz de superar as várias provações para persistir em sua fé.
Pobreza, simplicidade, juventude, inocência – todas estas características estão associadas aos videntes desde as aparições do final do século XIX. Em La Salette, Pontmain, Lourdes, Fátima, Garabandal e Medjugorje os videntes eram crianças ou adolescentes pobres, quase sempre pastores, que estavam em localidades isoladas pastoreando o gado. Os carismáticos presentes nos primeiros tempos das manifestações sabiam disso, bem como Marcos e os participantes do grupo de apoio o sabem atualmente. Assim, quando enfatizam estas características de Marcos Tadeu em seus relatos, destacam valores considerados importantes nos videntes reconhecidos, e que constituem a sua raridade. Ao destacarem os mesmos valores no jovem de Jacareí, estão demonstrando a sua raridade, que justifica o fato dele ter sido “escolhido” por Maria.

Além disso, estes valores dos videntes são muito semelhantes aos apresentados por Nossa Senhora durante a anunciação – momento em que ela é “escolhida” por Deus para gerar o seu filho. Por um lado, ela é retratada como muito jovem neste período, sendo de origem humilde. Por outro lado, esse é o momento em que ela diz sim ao Senhor, aceita o plano divino com todas as suas dores e sofrimentos.
De forma semelhante à Maria, os videntes são jovens e humildes no momento em que dizem sim à aparição, em que aceitam a missão de divulgar a mensagem da Virgem e se empenham em cumpri-la – como o sim de Nossa Senhora, o sim de Marcos também não representa a passividade, mas a atividade, a perseverança e a fortaleza em cumprir os desejos de Nossa Senhora mesmo diante das dificuldades enfrentadas. Além disso, assim como Maria, a jovem humilde escolhida pelo senhor, Marcos é apenas mais um, ele não se destaca, não aparenta ter nada de especial.
Marcos possui, pois, características pessoais semelhantes aos demais “mensageiros de Deus”, desde a mais iminente delas – Nossa Senhora – até os videntes marianos desde o século XIX. Isso permite que os peregrinos reconheçam nele traços de santidade, comprovando a sua raridade, fundamental para a produção da verdade da crença nas suas visões.



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B) A vida de provações: a importância da perseverança

As provações pelas quais Marcos Tadeu teve de passar desde a sua infância são sempre destacadas nos depoimentos sobre a sua vida. O seguinte relato, presente no livro “Maria nas aparições de Jacareí” ilustra bastante bem a centralidade dada às dificuldades do vidente ao longo de sua vida. Este relato está no item “Maria escolhe um jovem”, dedicado à descrição de Marcos:

“Quando pequeno tinha um problema de sopro no coração. O pai, desde os quatro anos de Marcos, começou a beber, causando grande sofrimento para a família. Seu pai era um homem violento, e quando bebia chegava a bater nele e em sua mãe. Quando tinha de nove a dez anos o pai o abandonou, com a o irmão, sozinhos. Para que não passassem necessidade sua mãe trabalhou arduamente. Mesmo assim, nunca foi revoltado, nem teve dificuldades escolares, sempre tirando boas notas. Em 1986 teve sarampo e quase morreu, ficando quatro dias inconsciente”. (2000:11)

Podemos notar, nesta primeira parte da descrição da infância de Marcos, que apenas os sofrimentos e dificuldades passados pelo vidente e por sua família são relatados. O tom de provação persiste durante todo o item, valorizando mesmo dores aparentemente simples - como um pequeno problema no joelho. No livro mencionado, há dois momentos que relatam as provações: o primeiro deles menciona as provações passadas pelo jovem na infância, e o segundo momento os sacrifícios dedicados a Jesus, iniciados após as visões. Assim, qualquer pequeno transtorno vivenciado pelo vidente é relatado de forma a valorizá-lo como uma provação ou um sacrifício.
Além dos sofrimentos físicos, os relatos dos participantes também destacam as “perseguições”. Segundo eles, Marcos passou por “perseguições” de diferentes origens: pela diocese de São José dos Campos - que não considera a aparição verídica e submeteu o vidente a exames e entrevistas para constatar a sua sanidade mental -; por parte da população local “que falava mal e rejeitava as aparições. Como outrora em Belém, em que o povo da cidade não quis aceitar o Salvador e a Virgem Santíssima.”

(2000:35) – os moradores de Jacareí jamais aceitaram as manifestações, considerando Marcos como um farsante e interesseiro, em referência aos supostos benefícios financeiros obtidos por ele com as aparições -; por parte da mídia, que no auge dos



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Cenáculos publicou matérias que indicavam o charlatanismo de Marcos e supostos benefícios financeiros retirados dos rituais -; por parte de grupos evangélicos, que empreenderam “ataques” ao vidente, por agressões verbais e ameaças físicas.
O relato da vida de Marcos destaca as provações, sacrifícios e perseguições passados por ele desde a sua infância até os dias de hoje. Este relato, elaborado pelos carismáticos envolvidos com as manifestações em seus primeiros anos, foca as dificuldades da vida do vidente, repetindo o padrão de relatos de vida de videntes.
A vida da vidente Bernadette, de Lourdes, é um relato de referência. Ela teve uma infância muito pobre e conturbada, marcada pela fome, e, depois, com as aparições foi humilhada pelos habitantes locais e por alguns representantes do clero, até o momento do reconhecimento, após o qual se recolhe em um convento. Porém, mesmo com o fim das “perseguições” e da pobreza extrema, sua saúde continuou muito frágil, levando-a ao falecimento precoce. A vida dos videntes de Fátima, três pastores, é também relatada como pobre e humilde, sendo repleta de “provações”, tanto que dois deles – Jacinta e Francisco – morrem ainda durante a infância.

Assim, a ênfase nos sofrimentos e na rejeição assemelha a história de vida de Marcos a de outros videntes marianos59. – inclusive pelo destaque a seus problemas de saúde, nunca muito graves, mas intensamente sublinhados, aproximando-os dos males físicos sofridos por outros mensageiros – de forma a legitimar sua veracidade. A ênfase nas provações e sacrifícios torna patente a proximidade entre a vida dos videntes, inclusive de Marcos Tadeu, e a vida de Jesus, pois ambas são marcadas por provações a serem superadas, sacrifícios corporais dedicados a Deus – Jesus passou pela dolorosa via crucis; Marcos sofreu dores físicas, doenças, internações, todas elas interpretadas como sacrifícios pedidos por Deus e realizados de bom grado pelo vidente – e perseguições por parte de diversos setores da população – foi o povo que condenou Jesus a crucificação, além de outras perseguições passadas por ele e os apóstolos durante sua vida, Marcos também destaca as várias perseguições sofridas desde o inicio das aparições.

A ênfase nos sofrimentos físicos de Marcos, em suas doenças, é uma maneira de comprovar a sua “santidade”, por meio da aproximação dos sofrimentos de Jesus e de outros videntes de Nossa Senhora. Assim, o relato da vida de Marcos Tadeu é
 

59 Apenas alguns episódios de felicidade e satisfação são narrados, como a sua visita aos Santuários Marianos europeus – Fátima, Lourdes e Medjugorje. Entretanto, mesmo os momentos felizes citados servem para atribuir legitimidade ao vidente, pois se referem à sua peregrinação aos Santuários Marianos de aparição mais visitados na contemporaneidade.




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construído de forma a atribuir legitimidade e raridade ao vidente pela aproximação entre a sua vida e a vida de Cristo e de outros santos.

C) O testemunho de vida

A vida seguida pelo vidente após as aparições também é utilizada como evidência da veracidade das aparições. Aliás, o que mais se poderia esperar de uma pessoa que viu e conversou com Nossa Senhora? Que siga uma vida “santa”, “sem pecados”, ou seja, de acordo com a conduta considerada correta pela Instituição Católica, ou instituída pela Virgem. A conduta dos videntes é importante e possui lugar central na análise sobre a veracidade das aparições por parte da Igreja. Além disso, ela serve como fonte de legitimação para estes fenômenos60.

A análise da postura do vidente foi instituída pela Igreja ainda na Idade Média, momento em que ela, segundo Barnay, busca retirar o foco das visões e dos transes e centrar-se nos videntes, nas pessoas que tiveram contato com a Virgem Maria. Eles passam a ser chamados “exempla”, ou seja, os visionários deviam ser pessoas exemplares por meio da imitação da Virgem Maria, assim, eles próprios se tornariam modelos para a cristandade. A Igreja busca exercer o controle sobre as visões por meio do controle dos videntes, transformando-os em exemplos de vida. Essa forma de agir da Igreja Católica em relação aos videntes não sofreu grandes alterações nas aparições modernas e nas aparições contemporâneas, sendo que ainda hoje um dos principais critérios determinados pelo Vaticano para o reconhecimento de uma aparição é a análise do comportamento do vidente. Quanto mais alinhado com a doutrina católica, maiores as possibilidades de reconhecimento, especialmente quando eles se tornam exemplos para os demais cristãos, optando pela vida religiosa, como fizeram as videntes Lucia – vidente de Fátima – e Bernadette – vidente de Lourdes.

No caso de Jacareí, mesmo diante do combate realizado pela diocese às aparições, o vidente busca ter uma vida “exemplar”, afastada do mundo de pecados. Nesse sentido, ele institui regras mais rígidas do que as presentes na Igreja após o Concilio Vaticano II61. O vidente se veste com uma batina marrom, como a dos franciscanos, não freqüenta festas, bares e restaurantes, não namora, não acumula
 



60  No capítulo sobre o papel da Igreja nas aparições demonstramos como o Pe Laurentin constrói a legitimidade das aparições de Pontmain a partir do testemunho de vida exemplar de seus videntes.
61 Isso tem relação com as críticas ao clero e a Igreja, comuns nas crenças escatológicas e nas concepção do mundo como local do pecado, como analisaremos no capitulo seguinte.




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riquezas – fez voto de celibato e de pobreza. Ou seja, segue uma doutrina muito rígida que o afasta do “mundo” considerado pecaminoso.
Entretanto, se os valores do vidente bastavam no início das manifestações, quando ele ainda era uma criança, com o passar do tempo apenas o seu caráter extraordinário não era suficiente, ele devia também ser inserido no campo como agente, adquirindo conhecimento e contato com outras manifestações, de forma a acumular o capital simbólico necessário para manter a sua legitimidade. Marcos, por exemplo, realizou inclusive a peregrinação para os Santuários marianos europeus – Fátima, Lourdes e Medjugorje. O vidente acumula capital simbólico pelo contato e conhecimento sobre as aparições reconhecidas. Além disso, Marcos, com o passar do tempo, consegue se mostrar detentor deste capital de autoridade, sendo que, na segunda década das aparições ele é o detentor exclusivo da palavra durante os Cenáculos, realizando orações, pregações e interpretações das mensagens de Nossa Senhora, sendo capaz de realizar citações sobre outras manifestações e conexões entre as mensagens da Virgem, demonstrando amplo conhecimento sobre elas. Ou seja, neste período ele passa de mero receptáculo das mensagens para intérprete exclusivo delas, analisando-as e estabelecendo conexões entre elas e mensagens da Virgem em outros locais.

Demonstraremos a seguir que as atitudes tomadas por Marcos neste período o afastam do padrão estabelecido para as aparições e para seus videntes, causando a ruptura com importantes membros da rede de manifestações marianas.

4) A Retração das Aparições


Neste item analisaremos a segunda década das aparições, a partir de 2002, momento em que os Cenáculos entram em declínio, diminuindo significativamente o número de participantes. Consideramos que este esvaziamento ocorreu devido a dois fatores: o isolamento do vidente e o seu afastamento do modelo de aparições reconhecidas. Desde o início das manifestações ele não foi aceito pelo bispo da diocese, sendo posteriormente combatido por ele e, em seguida pelos sacerdotes locais. Entretanto, o seu isolamento ocorreu principalmente em relação à comunidade católica de Jacareí e das cidades próximas e a figuras importantes da RCC no Vale do Paraíba – que, na primeira década, constituíram a sua base de apoio.
Quando encerramos nosso trabalho de campo o vidente encontrava-se isolado, apoiado apenas por um pequeno grupo de participantes fixos, responsável pela



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organização dos Cenáculos, que a cada mês estava mais esvaziado. Neste momento quase não havia “novos” peregrinos, a grande maioria era de participantes fixos, vindos de outras localidades, mas que já conheciam a aparição e a freqüentavam com certa regularidade. Ou seja, a aparição estava estagnada devido à rejeição do vidente na comunidade religiosa local – clero e católicos da região –, e a sua ruptura com o movimento carismático. Analisamos esta teia de relações, que a princípio contribuiu para a legitimidade das manifestações, mas, que também se mostrou central para a estagnação posterior dos rituais.
A perda de apoio está relacionada à perda da autenticidade de suas visões, elas não são mais percebidas como verídicas pelos carismáticos e pela comunidade local; ou seja, eles não têm mais convicção na sacralidade dos fenômenos. Isso ocorre porque Marcos rompe com o padrão das aparições reconhecidas - no que se refere à simbologia e as características de sua personalidade. Ele insere novos elementos e realiza ações que, na percepção dos peregrinos, não condizem com uma aparição verídica e um vidente autêntico.

4.1) A ruptura com os carismáticos

A ruptura entre o vidente e os carismáticos da região ocorre no final do ano de 2001, exatamente uma década após o início dos fenômenos. Vários fatores contribuíram para isso. Marcos já possuía contatos e informações sobre aparições marianas, e começou a questionar o “domínio” dos carismáticos sobre os Cenáculos, argumentando que ele era o vidente, ele era “o escolhido de Nossa Senhora” e, portanto, ele deveria decidir o encaminhamento do ritual.

Paralelamente, os carismáticos o acusavam de “querer aparecer mais do que Nossa Senhora”. Esta frase foi proferida por duas carismáticas, de grupos distintos e em ocasiões diferentes, buscando demonstrar a arrogância do vidente, ou nos termos das informantes, a sua “vontade de aparecer”.

Assim, Marcos, ao tentar tomar a frente dos Cenáculos, inicia uma disputa com os carismáticos, que não concordam com a sua liderança. Ou seja, enquanto ele era uma criança e aceitava submissamente as ações e intervenções realizadas pelos carismáticos, a aparição foi intensamente apoiada, divulgada e promovida pelos membros do movimento. No entanto, quando o vidente começa a questionar estas ações, e especialmente ao buscar ser o centro, o foco dos rituais, passou a ser percebido como arrogante e perdeu seu apoio.



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O vidente usa a sua exclusividade como moeda de valorização própria, pois

“ele sabia o que a Virgem queria, os outros não”. Como “escolhido de Maria”, afirma que ela lhe atribui tarefas, que somente podem ser realizadas por ele. A mais importante delas – e também a mais polêmica – é a sua exclusividade na interpretação das mensagens de Nossa Senhora. Essa atitude vinha em resposta à organização do livro “As aparições de Nossa Senhora em Jacareí” pelos carismáticos, no qual a sua participação foi mínima – os membros da RCC contaram a história e deram sua interpretação sobre os fenômenos.

O vidente, ao se proclamar como único intérprete legítimo das mensagens da Virgem em Jacareí – passa a organizar mensalmente um CD, com todas as mensagens transmitidas por Maria e com a sua interpretação delas – retira o poder da RCC em relação às “suas” aparições. Além disso, durante os Cenáculos, ele passa a ser o único a ter acesso à palavra. Ele conduz as orações, tem a visão e, por fim, interpreta a mensagem transmitida por Nossa Senhora.

Diante destas atitudes os carismáticos da região rompem definitivamente com Marcos, parando de freqüentar os Cenáculos e depondo contra ele em seus encontros. Importa destacar que o embate entre os carismáticos e o vidente acontece no momento em que os representantes locais da Igreja intensificam o combate às aparições, fato que também dificulta o apoio da RCC que, por ser um movimento católico, precisa, em certa medida, do aval da Igreja. Ou seja, o incentivo às aparições de Jacareí começava a trazer problemas para os carismáticos junto aos representantes do clero local, devido aos “exageros” do vidente.

4.2) A ruptura com a Igreja

A aceitação ou a rejeição das aparições pela ortodoxia católica é uma questão que perpassa a história desse tipo de evento. O caminho percorrido para o reconhecimento de uma manifestação de Nossa Senhora pela ortodoxia é bastante longo, entre uma pessoa dizer ter visto e escutado Maria e a aceitação deste fato pela Igreja há um grande caminho a ser percorrido, que, na maioria dos casos, culmina com a sua rejeição ou mesmo com a interdição pelos representantes oficiais do catolicismo.
O número de aparições de Nossa Senhora não aceitos pela Igreja é imensamente maior do que os reconhecidos oficialmente, e mesmo que os apenas “tolerados”. Jacareí é mais um exemplo de rejeição. Atualmente a aparição é completamente rejeitada pelos representantes locais da Igreja Católica, mais



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especificamente pelo bispo de São José dos Campos, responsável pela paróquia em que ocorre a manifestação.
Várias etapas se sucederam até a rejeição: a principio o bispo apenas “não recomendava” a participação dos padres, mas, devido à intensificação da polêmica em torno das atitudes do vidente, o bispo acabou proibindo a presença de sacerdotes no Cenáculo. O pároco de Jacareí acatou sua recomendação e foi ainda mais agressivo, proibindo a participação dos paroquianos, sendo que aqueles que desobedecessem à sua determinação não receberiam a comunhão durante as missas.
Esse é o momento de auge dos debates, que não arrefeceram até o final de meu trabalho de campo, em 2007. É preciso destacar que a proibição estabelecida pelo bispo surtiu efeito sobre o Cenáculo, contribuindo muito para a diminuição do número de participantes nos rituais. Assim, embora não tenha conseguido extinguir o ritual, diminuiu significativamente o número de participantes. Especialmente na diocese de São José dos Campos, a qual pertence Jacareí, a retaliação a essa aparição funcionou, pois atualmente os participantes dos Cenáculos não são provenientes da cidade ou da diocese, mas sim de outras localidades: são os peregrinos analisados no primeiro capítulo.

Segundo a postura determinada pelo Vaticano, uma aparição, para ser rejeitada, deve estar em contradição com elementos da teologia católica. Assim, a postura dos sacerdotes locais está fundamentada nas contradições entre o que é estabelecido pela ortodoxia católica na análise deste tipo de manifestação e a aparição de Jacareí. No capítulo anterior demonstramos que os critérios estabelecidos pelo Vaticano são utilizados de acordo com o interesse dos atores e grupos envolvidos nos eventos. A inserção de “novos” elementos e a postura do vidente contribuem para que a hierarquia percebesse desvios nesta manifestação que a caracterizavam como “falsa” e, portanto, ilegítima.

4.3) Os “exageros” do vidente e o combate do clero

As visões de Marcos Tadeu, com o passar do tempo, foram apresentando elementos considerados inconsistentes, sem conexão com a doutrina católica ou com as aparições reconhecidas de Nossa Senhora. Esses elementos surgiram por volta de 1998, no auge das manifestações. Neste período, Marcos, já um garoto de 20 anos, diz receber também a visita de Jesus e de São José, e até mesmo do Arcanjo Gabriel. Todos transmitem mensagens e “confirmam” as falas de Nossa Senhora. Embora a figura



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central das aparições ainda seja Maria, outros santos também começam a aparecer e a falar com Marcos, o que desestrutura o padrão consolidado das aparições: a Virgem não aparece mais sozinha durante os Cenáculos, mas acompanhada de Jesus e de São José.
A inserção destes elementos faz crescer a desconfiança da comunidade e do clero local – que já não via com bons olhos os encontros no Monte. A Igreja inicia, então, um combate contra as manifestações. O principal argumento utilizado por ela é a “inconsistência” das visões de Marcos Tadeu. A diocese e algumas paróquias da região se encarregaram de montar cursos e palestras sobre Nossa Senhora e sobre suas aparições, para “esclarecer” os paroquianos sobre esse tipo de fenômeno. Exemplo disso foi um curso realizado na paróquia do Espírito Santo, em São José dos Campos, na quaresma de 1999. Durante três noites foram realizadas palestras sobre Nossa Senhora, dedicadas aos dogmas marianos – enfatizando o que era aceito ou não pela Igreja – e a última delas foi referente às aparições de Nossa Senhora. Nela o palestrante mencionou a cautela e a prudência recomendadas pelo Vaticano, bem como os critérios de avaliação, enfatizando a importância da adequação à doutrina católica e terminou demonstrando as características comuns entre os fenômenos reconhecidos.

Em apenas um momento as aparições de Jacareí foram mencionadas, justamente para lembrar a importância da prudência, recomendada para cada um dos participantes, e da adequação à doutrina. Para a grande maioria dos participantes do curso, que já conhecia as manifestações de Jacareí, ficou evidente no momento em que o palestrante começou a demonstrar as semelhanças entre as aparições de Nossa Senhora, as diferenças em relação às visões de Marcos.
Importa destacar que esta paróquia é um importante centro de referência para os carismáticos locais, sendo que o Pároco é um destacado membro da RCC na cidade e na região, sendo suas missas repletas de carismáticos de toda a cidade e mesmo de cidades vizinhas. Assim, o público das palestras foi constituído, em grande parte, por membros e lideranças da RCC na região. Ao final das palestras ficou clara a intenção dos organizadores – o bispo e o pároco – em alertar os paroquianos a respeito das aparições de Nossa Senhora, especialmente sobre as manifestações de Jacareí, que atraíam multidões devido, em grande parte, ao empenho de membros da RCC. O pároco de Jacareí teve uma postura mais explicita contra as aparições. Enquanto os paroquianos de São José dos Campos estavam sendo formados para o “discernimento”, ou seja, para que pudessem avaliar as aparições – embora com uma forte tendência a renegá-las – os fiéis de Jacareí foram proibidos de freqüentá-las, sendo ameaçados inclusive com a



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excomunhão. O pároco de Jacareí foi enfático quanto às “aberrações” das visões de Marcos, especialmente no que se refere às aparições de Santos – principalmente São José – fato que não está presente nas aparições reconhecidas.
O pároco de Jacareí usava argumentos que demonstravam a incompatibilidade entre as aparições de Marcos, a doutrina católica e as aparições reconhecidas, especialmente no que se refere aos “novos” elementos, como as visões de Santos e Anjos. Em suas palavras “isso nunca aconteceu antes, Maria aparecer tantas vezes, e ainda mais junto com Jesus e São José! Em Lourdes não foi assim, nem em Fátima. Tudo naquela aparição (a de Jacareí) demonstra a sua falsidade”.
Dessa forma, os elementos heterodoxos com relação às aparições reconhecidas eram usados para deslegitimar a aparição de Jacareí. Se em um primeiro momento houve a modelagem do fenômeno de acordo com o padrão estabelecido no século XIX para lhe atribuir legitimidade, nesta segunda década são justamente os elementos que demonstram o afastamento com relação ao padrão que são enfatizados pelos sacerdotes para demonstrar a sua falsidade. Isso foi realizado em São José dos Campos, por meio das palestras, e em Jacareí, pelas pregações do pároco62.

A inserção de novos elementos é percebida como heresia. Marcos quebra as regras do jogo, acrescentando elementos que não estavam presentes nas aparições reconhecidas. A sua ruptura com as aparições estabelecidas foi além do que era aceitável, demonstrando uma autonomia que impossibilitava a aceitação de suas visões como legítimas. Sua postura também contribui para o declínio das manifestações. As atitudes e falas de Marcos o afastaram do ideal de humildade e inocência constituintes dos videntes marianos, caracterizando-o, pelo contrário, como arrogante, adjetivo percebido na fala dos carismáticos e dos católicos locais em referência a ele.

4.4) O Vidente e a Comunidade: da inconsistência ao isolamento

No momento em que a diocese e a paróquia começam a “esclarecer” os participantes locais, realizando pregações e palestras contra as aparições de Jacareí, demonstrando a sua incoerência com a doutrina católica, o discurso da comunidade local, especialmente dos católicos, também segue na mesma linha. Ou seja, os
 

62 Segundo o vidente, houve um combate generalizado a suas visões, realizado por vários padres da região e pelo bispo, que falavam contra elas em suas pregações. Não pudemos observar este fato em outras paróquias da região, apenas em Jacareí e em São José dos Campos, mas esta era uma fala recorrente de Marcos durante os Cenáculos, acusando “os padres” de pregarem “contra Nossa Senhora”. De qualquer forma, o combate a elas, por meio da desvinculação dos fenômenos reconhecidos foi a estratégia usada pelo clero local.




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moradores embasam sua descrença na incoerência com a doutrina católica, especialmente na diferença em relação às aparições reconhecidas de Nossa Senhora. O depoimento de Beth, católica praticante da paróquia de Jacareí ilustra bem este ponto:

“Nós começamos a perceber, a ver que aquilo que acontecia lá (no monte) nunca tinha acontecido antes. Não era nem parecido com as outras aparições de Nossa Senhora. Essa história de Jesus, de São José aparecerem, de falarem com o vidente nunca aconteceu! Então a gente foi percebendo que não era verdade, que nas aparições de Nossa Senhora não era assim.”

A inserção de elementos que fugiam do padrão das aparições reconhecidas causava incômodo nos paroquianos, levando-os a crer na falsidade das visões de Marcos Tadeu. Ou seja, a “novidade”, o fato disso “nunca ter acontecido antes” deslegitimava as aparições, pois as afastava do padrão recorrente.
Dessa forma, o vidente ganha autonomia, ele não é mais apenas o “mensageiro” da Virgem, mas também o intérprete das suas mensagens e o condutor do culto. Ele deixa de ser um instrumento vazio, por meio do qual Maria se manifesta, tornando-se um indivíduo.
Os novos papéis assumidos pelo vidente o afastam do padrão, em que os videntes são percebidos apenas como instrumentos de Maria. Lembramos aqui os casos de Bernadette - que seguiu fielmente as demandas da Instituição, tornando-se freira – sendo constantemente vigiada e nunca falando com o público - e Lúcia, vidente de Fátima, que se tornou carmelita, vivendo reclusa. A partir do momento que o vidente deixa de ser um instrumento vazio, ganhando autonomia e falando por si, a percepção da veracidade de suas visões começa a se romper.

O processo de modelagem impedia a autonomia do vidente - no ritual e em sua personalidade. As “novidades” rituais não são bem recebidas porque demonstram a autonomia do vidente: acrescentando elementos e conduzindo o Cenáculo – afastando-o do modelo. Assim, os participantes começam a percebê-lo como arrogante, e não mais humilde – pois ele não reproduz o padrão de aceitação, mas toma atitudes, circula, interpreta mensagens; ou seja, torna-se um indivíduo, e não a reprodução de uma personalidade padrão.
Além disso, Marcos, ao tentar instituir a “novidade” em suas manifestações

– em relação aos elementos simbólicos e rituais - acaba por romper abruptamente com





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“Pelo meu filho Marcos e pelas obras que ele empreende em meu nome eu vos
as regras do jogo – em que a adequação ao padrão era central - instituindo novas regras que não são reconhecidas como autênticas pelos participantes. O “novo” não é percebido como verídico. Perde-se, então, a impressão de verdade que havia sido constituída durante a década de noventa através da adequação das aparições de Jacareí ao padrão. Dessa forma, a reciprocidade entre o vidente e os participantes é rompida.

A postura de Marcos também contribui para esse processo de deslegitimaçao das aparições. Além de professar constantemente sua exclusividade no contato com a Virgem e não aceitar “palpites” de ninguém, ele também não atende o público – os peregrinos devem enviar uma carta para marcar uma conversa, pois ele diz estar sempre muito ocupado com as “tarefas que Nossa Senhora lhe atribui”. Além disso, refere-se constantemente, durante suas falas no Cenáculo, à preferência que Maria tem por ele, colocando-se como “um filho especial”.

Essas atitudes e falas do vidente criaram uma antipatia da comunidade local

– inclusive dos católicos não praticantes – em relação a sua figura. A seguinte fala, proferida por ele durante um Cenáculo e atribuída à Virgem, é emblemática de sua

postura:

prometo salvar o Brasil”. Por essa e por falas de teor semelhante, Marcos confere valor e importância a si mesmo, por meio de palavras atribuídas a Nossa Senhora, passando a ser percebido como “aparecido”, “metido”, “arrogante” pelos católicos locais e pelos carismáticos.
Essas características contribuem para a sua deslegitimação enquanto vidente, pois elas são o oposto da humildade, da simplicidade esperada de um mensageiro de Nossa Senhora. Assim, quando os fiéis se deparam com frases como a anterior, em que o vidente faz questão de enfatizar a sua extraordinariedade, ou com o fato de não falar pessoalmente com os peregrinos, a construção da humildade e da simplicidade se desfaz, e eles se percebem diante de uma “celebridade”, que não fala com o público e que se considera extraordinário. O vidente, ele próprio, não permite a troca, considerando-se auto-suficiente.
Ou seja, a troca é rompida. A crença no dom do vidente era atribuída pelos participantes, que identificavam elementos que “provavam” a sua santidade. Entretanto, o vidente rompe com as regras do jogo, afastando-se destes elementos. A convicção na veracidade de suas visões é então quebrada.
Assim, as posturas do vidente, o acréscimo de elementos estranhos ao padrão de aparições marianas e a ruptura nas suas redes de relações sociais - afastando-o de



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membros importantes da rede de manifestações - levam à regressão dos Cenáculos, que são constituídos atualmente apenas por um pequeno grupo de participantes fixos.
A participação de pessoas da região é muito rara nos últimos anos, e as peregrinações de fora diminuíram significativamente, devido a sua dificuldade em mobilizar a rede de contatos sem a ajuda da RCC. Marcos, rompendo com os carismáticos, sendo combatido pelos sacerdotes e pela comunidade local, está cada vez mais isolado, e os seus rituais cada vez mais esvaziados.
Dessa maneira, na primeira década das manifestações o apoio da RCC e a modelagem das aparições de acordo com o padrão reconhecido foram centrais para o sucesso dos Cenáculos, já a partir dos anos 2000 a intransigência de Marcos, que se proclama “o” representante de Nossa Senhora, insinuando não precisar de mais ninguém, apenas “Dela”, e o seu afastamento do modelo reconhecido colaboram para que suas conexões se desfaçam e sua legitimidade seja questionada.

4.5) A defesa e o ataque de Marcos

Marcos não apenas insere novos elementos nas suas aparições, mas também inicia um processo de combate aos sacerdotes e ao bispo de São José dos Campos, realizado durante suas pregações nos Cenáculos e nas mensagens atribuídas a Nossa Senhora. Isso acontece como uma defesa do vidente após a rejeição de suas manifestações pelo clero local.
Em suas pregações durante os Cenáculos ele fala da existência de um combate generalizado dos padres contra as aparições, e, consequentemente, contra Nossa Senhora. Por isso ele avisa aos participantes que o clero está corrompido, pois não quer que as pessoas “venham ouvir as mensagens de nossa mãe celeste”. No entanto, segundo ele, apesar dos sacerdotes desaconselharem a participação nos Cenáculos, Maria pede enfaticamente que “seus filhos” compareçam e orem, que não ouçam os “maus conselhos” dos padres.
O ataque ao clero em alguns casos toma dimensões pessoais, e vem por meio de palavras atribuídas a Nossa Senhora. Uma mensagem que teve muita repercussão na diocese foi transmitida no Cenáculo de Novembro de 2005, em que, segundo o vidente, Maria diz que “o bispo Dom Nelson é o filho que ela menos ama”. Vale a pena analisar com mais cuidado este evento.
Ela foi proferida após o bispo ter se manifestado contra as aparições – para o vidente Marcos, em consulta particular, pois ele nunca as mencionou publicamente em



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suas pregações63 – fato que ofendeu o vidente. Segundo Marcos, ele foi “escolhido por Nossa Senhora”, ele é “o mensageiro de Maria”, assim, diante da rejeição do clero, do rompimento com a RCC, a única fonte de legitimidade que lhe resta é o contato com Maria, a crença em ser o único a receber as suas mensagens. Por isso Marcos usa as mensagens para combater a rejeição do clero. Entretanto, as mensagens de Maria não podem trazer elementos de discórdia, pois ela é a mãe carinhosa, que ama a todos os seus filhos – como analisaremos no próximo capítulo, a maternidade de Nossa Senhora é uma característica central das aparições – por isso não pode deixar de amar Dom Nelson. Porém, tudo indica que pode amar menos.

Marcos, em seu isolamento, apoiando-se em Nossa Senhora, em suas palavras e mensagens, acaba por criar uma escala de seu amor maternal, na qual ele é o mais amado dos filhos – por seguir as determinações de Maria -, em seguida vem aqueles que participam dos Cenáculos e também cumprem as determinações “dela”, e por último todas as pessoas que não participam, e principalmente aqueles que a combatem, inclusive o clero - os sacerdotes e o bispo, por não reconhecerem as aparições, e, pior, tentarem convencer os católicos a não participar das aparições.

Dessa forma, a única moeda que resta ao vidente é sua capacidade de falar com Maria. Ela, porém, não é suficiente, pois a construção da verdade da crença depende de uma reciprocidade de perspectivas, cuja troca ele rompe de maneira unilateral na forma como usa o seu dom.


Os Bastidores de Jacarei Aparicoes - Tese de Doutorado e mestrado

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